quinta-feira, 3 de março de 2011

Virando Gente

Estou me acabando. Descobri isso há pouco. Sem perceber comecei a me lembrar de quando eu começara a me acabar. Eu ficava sentado no tapete azul da sala brincando com meu carrinho de soldado. Eu jogava de um lado para outro. Sempre derrubava um desses enfeites que as mães tanto adoram (pelo menos a minha adorava). De longe, quando ela ouvia o barulho de um enfeite se quebrando, saia da cozinha com aquelas “pegadas pesadelos” e logo dizia:

_Menino, quantas vezes eu vou te avisar para ter
cuidado? Vê se vira gente!

Eu achava graça no jeito dela falar e sempre perguntava:

_O que é gente mãe?

Minha mãe ficava mais brava quando eu fazia essas perguntas, mas eu insistia:

_Gente morre?

Sempre era assim, ela continuava a me encarar por alguns segundos e voltava para a cozinha sem me dar  a resposta. E eu nem queria mais brincar. Ficava pensando o que era gente. Para mim, gente era o meu pai, minha mãe, a Gabi e o Rex. A dona Clara não era gente. Ela era chata e fazia fofoca. O Rex era a gente que eu mais gostava porque ele ficava feliz quando eu chegava da escola. Só que ele morreu. Foi ele quem me ensinou que gente acaba.
Meu Deus! Minha mãe não pode ser gente. A Gabi e meu pai também não. Nem eu. A dona Clara pode.

Hoje eu tenho tanto medo de virar gente e me acabar.

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