segunda-feira, 14 de março de 2011

Setenta e poucos

A velha não pára. Quer produzir. Quer correr. Correr contra o tempo, atrás do tempo. Os filhos cresceram, os netos nasceram e o marido morreu. Ela ficou, tem tentado ficar mais. Por ter ficado é preciso trabalhar. Por a vida em ordem. Sem muito pensar, a doninha de cabelos branco-amarelados e olhos apertados pega o lençol, forra a mesa _ que ora funciona para servir o almoço (para si) e ora funciona para trabalhar. Passar as roupas dos netos que uma vez por semana traz a trouxa suja para ser limpa e passada. Cuidadosamente liga o ferro, que para ela tem o nome de gomador. A velha molha a ponta do dedo na ponta da língua e o coloca no ferro para ver se a quentura está boa. Peça por peça ela passa. Vez ou outra levanta uma camisa contra a luz para ver se ficou alguma ruga, vez ou outra coloca as mãos nos joelhos para aliviar a dor. Os joelhos doem. Foi a caminhada. Falta somente aquela blusa azul-claro do neto para que o trabalho esteja concluído. Repetindo o movimento de colocar a blusa contra a luz a velha percebe que há um fio solto na manga esquerda. Sem pensar desliga o ferro e trava uma luta com a agulha e a linha. Muito tempo depois e, com toda a cautela, a velha costura aquele buraco feito pela falta daquele fio. Preenchendo o buraco da blusa, ela destila amor. Amor ao neto, ao filho e ao marido. Até amor a nora. Novamente ela liga o ferro e mecanicamente repete os movimentos: o dedo na língua... no ferro... mãos nos joelhos... blusa contra a luz... e pronto. O trabalho acabou.
     Olhando o monte de roupas passado, a velha suspira e diz:

     _Graças a Deus passei tudo!

Naquele dia a velha foi dormir sozinha, novamente...

Um comentário:

  1. Com narração envolvente - de quem tem uma doce avó (talvez, já somente na lembrança)- toca corações. Teruko Monteiro

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