Sempre era assim, ela ouvia uma história bonita e assumia aquilo como se fosse uma vivência sua. Todas as vezes que se sentava em uma mesa de bar com os amigos se lembrava de algo que gostaria de ter vivido e que ouvira em algum lugar e começa a contar:
_ “No passado eu vivi um grande amor, mas tivemos que nos distanciar por causa de nossas famílias... Outro dia salvei uma criança de um engasgamento, ela engoliu um osso de galinha... Uma vez fui ao vaticano e segurei nas mãos do papa...”.
As histórias eram requintadas, aumentadas com suspense, emoção. Na verdade o que ela queria era se tornar alguém interessante, uma vez que achava sua vida pouco apimentada. Vivia naquele quarto e sala e alfabetizava alunos no Vidigal.
O que ela queria mesmo era ser citada em uma mesa de bar, assim como citava aquelas histórias.
Um dia desses recebeu uma proposta irrecusável para lecionar em Minas. Aceitou. Foi até o Vidigal se despedir dos seus alunos. Em seu discurso, iniciou com uma daquelas histórias que ouvira em algum momento de sua vida:
_ “Como vocês sabem, sou missionária e minha função é levar a palavra para aqueles que precisam, acredito que todos vocês já estão prontos para receber uma nova professora....”
Os olhos de seus alunos brilharam, mas dessa vez não foi pelas histórias que contara e sim pelas lágrimas que insistiam em aparecer. Por um minuto ela gaguejou e esqueceu o desfecho da história. Ficou em silêncio até que um aluno interrompeu com uma voz trêmula:
_“A senhora não pode nos deixar, precisamos das suas histórias para acreditarmos”
Com aquelas palavras ela não quis ir mais para Minas, havia percebido o quanto se tornara uma pessoa interessante.
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