Comecei a fazer terapia. Acho que foi para me livrar desses poemas mal resolvidos que ando escrevendo. O consultório de minha terapeuta revelava-me que os poemas sabiam muito mais que eu. Acho até que ele ria de mim. Minha terapeuta, como o de costume, sentou-se em minha frente para começarmos a sessão. Em um determinado ponto da conversa acendi um cigarro. Como não gosto de deixar a cinza cair no chão, logo fui procurando o cinzeiro de minha terapeuta. Deixar a cinza cair no chão é uma gafe. Só deixo as cinzas caírem de vez, quando não estou me importando com as gafes. O cinzeiro de minha terapeuta é meio antipático. Ele é de madeira e com tampa. Vejam só, cinzeiro com tampa. Só pode ser invenção dos japoneses. Eles são muito criativos para essas coisas. Adoro os japoneses. O cinzeiro de minha terapeuta é enigmático. Ele é “a caixa de Pandora”. E eu nem sabia disso. Ousei abrir “a caixa de Pandora” e estar de frente com os segredos que não me pertenciam. Havia dois tocos de cigarro de palha dentro. Entrei em uma viagem tão estranha. É, acho que estranha é a palavra certa. Os cigarros estavam quase todos fumados até aquela borrachinha azul que prende a palha. Fiquei imaginando quem era aquela pessoa. Uma pessoa para fumar cigarro de palha com borrachinha azul deve ser muito elegante. E aflita também, pois tem que ficar com o isqueiro na mão o tempo todo. Fumar dois cigarros de palha com borrachinha azul e isqueiro na mão é para quem está desesperado. Será que era homem? Não, acho que não. A pegada no cigarro era muito suave para ser homem. Mas será que mulheres fumam cigarro de palha com borrachinha azul e isqueiro na mão? Será que sofria de amor ou problemas financeiros?
Acho que era de amor. Quem tem problemas financeiros não fuma cigarros de palha com borrachinha azul e isqueiro na mão.
Será que conseguiu falar de seus problemas?
Acho que sim. Afinal fumou dois cigarros de palha com borrachinha azul e ficou o tempo todo com o isqueiro na mão.
Com um estalo sai dessa viagem e encarei “a caixa de Pandora” como o objeto que era: um cinzeiro. Ela me sugava de uma forma faminta. Eu havia deixado ali dentro cinco cigarros de filtro amarelo. Achei que era demais. Cinco cigarros de filtro amarelo. Não é possível. Tampei “a caixa de Pandora” e deixei uma dúvida para o próximo paciente: Será que quem está mais desesperado? Será que quem sofre mais?
O paciente que fumou dois cigarros de palha com borrachinha azul e ficou com o isqueiro na mão ou o que fumou cinco cigarros de filtro amarelo?
Na próxima sessão tentarei descobrir...
Bacanas seus textos! Parabéns!
ResponderExcluirAdorei! Viajei com você na "caixa de Pandora". Incrível!
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