terça-feira, 29 de março de 2011

Medo

Do que realmente ele tinha medo? Por várias vezes pegou o telefone para ouvir a voz dela e dizer que tinha saudade, mas tinha medo de não ser correspondido. Então mandou uma mensagem, outra mensagem e por várias vezes mandou mensagens, mas não obteve resposta. Ficou completamente fadigado, se entregou a grandes doses de vodka para ver se tinha coragem de ligar, mas o medo sempre falava mais alto: “E se ela não quiser mais me ver? Se não quiser mais falar comigo?”
Passou cinco dias sem uma notícia, e cinco noites tendo sonos intermitentes. O primeiro pensamento do dia era ela, o último também. Entre o primeiro e o último, milhares de vezes foi nela que pensou. Mas não queria ouvir o que ela tinha a dizer, tinha medo da rejeição, e por isso sofria aquela angústia que trincava seu ser. Não conseguia falar com ninguém a respeito, pois só de pensar na possibilidade da separação sofria como um louco. Perdia completamente o controle e o equilíbrio. Já não trabalhava direito, não falava direito, não comia direito e nem sorria e nem chorava. Estava se consumindo, apenas pensando e temendo.
Até que veio a tão esperada notícia, por mensagem: “Estou bem, estou internada e não tive como te avisar”. Imediatamente ele pegou o celular e ligou para ela. Ouvir aquela voz doce e tranqüila foi como ter todos os seus pecados redimidos, e em sua respiração trêmula transmitia tamanha aflição e alívio. Sem pensar ele foi para o hospital e só saiu de lá acompanhado. Por ela. 

segunda-feira, 28 de março de 2011

O espelho

Quando se olhou no espelho tomou a grande decisão, não iria mais chorar!  Achou que o efeito de segurar as lágrimas a sensibilizava muito mais, mas ela decidiu: as lágrimas não irão existir. Para isso ela sorriu, dançou e trepou. Quis a vida. Feliz. E assim se fez, feliz.

domingo, 27 de março de 2011

Brotar

  
Ela estava passando uma faze de exclusão, mas não do mundo e sim de si mesma. Queria estar presente, mas não conseguia absorver o drama de ninguém, pois havia nela um negro de esperança que a impossibilitava de alcançar qualquer um.
Lamentava-se por não ser forte o suficiente para se enfrentar, então dormia para não sentir dor. Apesar da dor, latente, respirava e não queria se acostumar com ela. Suplicava para um Deus, que estava irreconhecível em sua memória, um sopro de vida. Sentia um eco muito grande em seu ser, mas este eco não doía e então ela vivia um momento único, o da dor. Agonizava sozinha pela existência, e percebia como existir era dilacerante, mas ela não se importava, queria existir, resolveu não mais dormir, não mais sentir dor, não mais agonizar e simplesmente, como o anoitecer, brotou. 

sábado, 26 de março de 2011

O vampiro

Quando eu olho nessa janela iluminada de ossos me lembro imediatamente daquele gosto de beijo. Penso em suas mãos pesadas de desejos perdidos em um romântico, mas paro e penso que na verdade eu gosto é do profano que há em você. Peço a Deus para nunca permitir que eu me apaixone pelo romântico que há em você, não mereço isso, pois acho que estou ressecado pelo inexistente amor e não quero mais florir, então peço para me apaixonar pelo profano que há em você.

Quando penso no seu profanismo sinto a vontade de me apaixonar pelo romântico que há em você, mas não sei se consigo unir o profano com o romântico. Será que você consegue?

Sinto me acuado nesse momento e me vêem várias perguntas do tipo dúvida ou vontade? Acho que viver! Alegria ou medo? Acho que você! Eu ou eu? Acho que vontade! Eu ou você? Acho que medo! Viver ou morrer? Não sei!

Tais dúvidas me fazem desejar o sangue sagrado que há em suas entranhas e que saciam e alegram o meu vampiro ser, mas não posso doar mais nada que há em mim, pois minha raiz está quase morta e precisa ser regada, aliás, precisa ser alagada. Então percebo que descobri algo, eu sou o profano e você o romântico. 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Quando sonho com o nirvana

Percebo que morro. Quando te vejo ou quando choro?

Não! Me limpo! Quando te vejo e quando choro.
Sinto aflição de querer, mas o quê?
Não sei aonde está o tão prometido oásis. Em mim ou na sua proteção?
Sei que o seu amor me protege de mim mesmo, isso é verdade. Me freia e me acelera.
Me dá saudade... da criança. Aquela que sonhava, brincava e sorria. Para onde ela foi?
Está passeando? Será que vai voltar?
Penso que está dormindo aqui do ladinho... meu ladinho.
Me embala nos braços? Naqueles braços da esperança morta e ressuscitada.
Quando me embala eu viro o louco, o bobo da corte, consigo te confundir e te faço gargalhar, mas eu choro sozinho. Sou tão só que quero te acompanhar, mas tenho sangue na respiração, então você se vai.
Para onde vai?
Me leva, ou então não vá. Sou eu quem devo ir, pois o penhasco me espera, mas não consigo pular. Segura minha mão para fazermos isso juntos, mas por favor, não me solte. Eu só quero voar um pouco para depois acordar.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Outra vez ar

Passos monitorados pelo vento da solidão me fazem querer sair desse calabouço que há em mim. Até sinto conforto em estar aqui, mas preciso ter a luz, porém não me lembro qual é a sua cor. Às vezes minha memória cintila sorriso de algo que não conheço, mas sei muito bem o que é. É a asa que assopra e assombra o cantar da vida. Nessa vida existe um oco muito grande...lá e aqui nessa gruta pulsante. Do lado de lá está você e eu consigo ver a montanha azul onde fica sua selva encantada.

Voe...voe, porém mais baixo; não consigo subir e não sei voar, acho que nem caminhar. Talvez eu não consiga te dar a luz necessária para a sua sobrevivência e talvez seja esse o meu castigo: ter me tornado criatura de lama seca por dar vida a tantas outras.

Preciso de ar, dê-me ar, seja o meu ar. Vamos voar? Eu estou aqui, mas preciso que você me puxe novamente para o alto, para quem sabe, eu te alcançar outra vez.

terça-feira, 22 de março de 2011

Minha casa

A ardência do novo me persegue e eu persigo o passado. Quero transformá-lo em presente novamente, mas o novo está batendo à minha porta. Quer entrar, mas não sei se consigo deixar.
Preciso arrumar a casa que está tão empoeirada, por isso não posso receber ninguém. Nem uma visita.
Esse inchaço do nada tenta transmitir uma falsa esperança que as minhas manchas tentam apagar, mas o meu passado tenta resgatá-la.
O que você fez? Traga-me de volta. Não sei aonde estou, mas sei que você está aqui no meu lar. Você não entende nada e quer se mudar.

Já se foi?

Volta!

É um apelo de quem pouco te conhece.

Você que possui essa fórmula mágica da vida dê-me um pouco mais. Preciso sentir o calor de sua presença.

Se não puder voltar venha me visitar. Pelo menos de vez em quando. Venha e abra a porta desse lugar conhecido e amaldiçoado.  Só você pode me libertar, então faça isso por mim...

O resultado

O engraçado é quando você percebe que não tem controle de tudo, que existem coisas que regem sua vida, queira você ou não, e que é apenas uma condição a mais para  a sua existência. Ou você se adapta a essa condição ou você morre.
Quando ele se viu nessa situação, onde nada dependia dele, onde o controle não o pertencia  mais, foi como se ele mesmo não existisse, pois não conseguia mudar, dependia de um milagre. O pior de tudo não era o milagre esperado e sim ter que se fazer de forte para não ser merecedor da pena alheia.
Naquele dia, antes de abrir aquele envelope, sabia muito bem que sua vida jamais seria a mesma, independente do que tivesse ali escrito. O impacto de saber que não tinha controle de sua vida foi tão grande, tão devastador que pouco importava se ele iria viver mais seis meses ou mais cinqüenta anos, o principal era saber que ele não era o mesmo. Não via as pessoas da mesma forma. Algumas não conseguiam presenciar aquela tragédia e simplesmente se foram, outras padeciam com aquela possibilidade terrível da morte e ele, que era a “vítima” tinha que consolá-las, tinha era de ser forte.
O que acontece é que milagres existem, e ao abrir aquele envelope ele havia sido contemplado. Não pelo resultado, pois não interessava mais se ele viveria seis meses ou cinqüenta anos, o que interessava para ele naquele momento é que ele queria viver e, assim, viveu, querendo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

metrópole


Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro

Gritos de mulheres histéricas

Nova York, Londres, Madrid
Alguém bate no portão
Moscou, Toronto, Paris
Não conheço meu vizinho
Tóquio, Cidade do México, Buenos Aires
Chama a polícia, chama a polícia!
Roma, Lisboa, Sidney
Socorro eles vão entrar...
Meca, Belém, Aparecida
Deus venha me salvar!

domingo, 20 de março de 2011

E-mail

De: Capitão do amor
Enviada em: Terça - feira, 14 de dezembro de 2004  15:29
Para: Capitão do coração
Assunto: Exames e corações

“Bam, bam, bam, senhor capitão”. Já peguei o seu exame e parece que tudo está bem,
com exceção do seu coração, que conforme tudo indica está sofrendo de superpopulação,
mas em contrapartida ele é grande demais e ainda cabe muita gente!

De: Capitão do coração
Enviada em: quarta - feira, 15 de dezembro de 2004  16:16
Para : Capitão do amor
Assunto: RES: Exames e corações

Muitas gente caberia em meu  coração se não houvesse a grande devastação do meu incontrolável pulsar em vê-lo ocupado. Não quero inquilinos, exijo proprietários. Os inquilinos trazem-me muitos problemas, deixam estragos que às vezes tornam-se irreparáveis. Muita gente há em meu coração, porém não são inquilinos que estão querendo se instalar definitivamente e, ele não é grande como havia dito senhor capitão. É menor que o céu multiplicado pelo mar e maior que sua vontade de entrar. Portanto segue uma proposta para quem se interessar:

“Precisa-se de morador definitivo para um pequeno coração que tem a mania de ser grande. Não está em muito bom estado, pois o inquilino anterior o deixou sujo de tristezas e amarguras. O proprietário o lava de esperança todos os dias e tem a certeza que a sujeira e a amargura serão eliminadas quando o morador definitivo chegar. Promete-se o bam, bam, bam dos apaixonados e a  respiração dos amantes. Aquele que se interessar pode chegar, mas há de prometer que não se cansará e outra casa jamais irá buscar.”

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sozinho

  
Estava sozinho naquele bar. Tomou três cervejas e pensou em trinta e poucos anos de sua vida. Viu-se sozinho, confuso, com medo, angustiado e a espera de alguém que nunca chegava. Eram quase dez horas, olhou no relógio e viu que estava tarde, precisava ir embora, mas pra que? Pensou ele. Ninguém o esperaria chegar. Saiu do bar e foi caminhando com um aperto tão grande no peito que não conseguia explicar, queria falar com alguém, mas se sentia tão invisível que não conseguia olhar para as pessoas. Seu olhar sempre mirava os pés. Ao chegar à porta do prédio ficou aproximadamente uns dez minutos procurando as chaves, foi quando um vizinho que ele nunca tinha visto também chegou e abriu o portão. Ambos entraram no elevador sem trocar um olhar, uma palavra. O vizinho desceu no mesmo andar, e novamente não se falaram. Ele continuou com a busca pelas chaves até que forçou a maçaneta. Percebeu que havia deixado a porta aberta, mas ninguém entrou. Ninguém queria entrar. Foi direto para o banheiro e se olhou profundamente no espelho. Viu como tinha envelhecido. A barba estava por fazer e a falta de sono o deixara com olheiras bem marcadas. Não conseguiu nem chorar. Queria apenas dormir. Foi até a caixinha de remédios retirou três cartelas de diazepam e foi até a sala, pegou aquela garrafa de uísque que estava pela metade sobre a mesa, sentou-se e foi retirando comprimido por comprimido das cartelas. Às vezes dava um gole profundo no uísque enquanto enfileirava os comprimidos como se fosse um caminho. Ao retirar todos os compridos das cartelas pensou em ligar para alguém, mas não tinha para quem ligar. Conseguiu então chorar...
Um a um foi colocando os comprimidos em sua boca, só queria dormir. Para engolir melhor enchia o copo de uísque e dava goles gigantes. Tomou todos. Foi para a janela olhar a paisagem, mas a sua vista dava para uma parede, seu apartamento era de fundos. Voltou e sentou-se no sofá. Tomou mais uísque. O sono que ele não via há dias veio lentamente chegando. Ele dormiu sentado, segurando o copo que estava apoiado em seu joelho, foi então que seu corpo foi encontrado, seis dias depois, na mesma posição.

Meu amor

O meu amor é tão perfeito que até vai embora e me faz chorar...

Gestação

Minha gestação é a mais dolorosa que conheço. É totalmente turbulenta. O sexo da criatura que pulsa em meu ventre inexistente é indeterminado pela determinação de querer ser. Já tive umas duas mil e trezentas gestações, porém somente algumas criaturas vingaram. Pari algumas do bem e outras do mal. Algumas não são nem do bem e nem do mal; apenas não são. São o nada que pulsa em meu inexistente ventre. O parto é mais doloroso que fórceps, quase sangra. É desumano porque sou um e dez. O humano que se transforma no nada, no desumano e que volta a conhecer o humano para parir. Parir palavras...

quarta-feira, 16 de março de 2011

A maldade da galinha


Ele sempre observava o carinho com que a mãe cuidava das galinhas. Chegava até a sentir um pouquinho de
ciúmes com aquela distribuição de atenção dada àqueles seres, cuja classificação não era outra a não ser inferior. O desprezo era enorme, especialmente para aquela dali, que tinha um pescoço comprido e um andar suave. Um dia, quando ele estava sozinho no quintal, olhando para as galinhas, aquela de que ele tanto odiava ( aquela de pescoço comprido e andar suave) o encarou com um olhar mórbido. Ele sentiu-se ameaçado e com raiva porque aquele ser inferior o encarou. Pensou logo em se vingar. Correu até a cozinha e pegou o tubo de mostarda que estava dentro da geladeira e quando voltou, aquela criatura feia estava no mesmo lugar o esperando para o duelo.

Ele fingiu-se de bonzinho e começou raspar os dedos e emitir o som parecido com o das galinhas:

_Prrruuu...Prrruuu...Prrruuu

A galinha era mais corajosa do que ele podia prever. Aproximou-se com toda a classe que era peculiar a uma galinha. Ele mirou o tubo de mostarda bem no bico. Queria que ela sentisse o gosto amargo da mostarda. Já estava pronto para atirar, mas com um forte arranco sentiu o tubo de mostarda escapar de suas mãos.

Era sua mãe...

_O que você ia fazer moleque? Ia jogar mostarda na pobre da galinha?

Ele nem conseguiu responder. Sua mãe o pegou pelos braços e o segurou pelo rosto apertando bem forte
até que ele abrisse totalmente a boca e, sem pena espremeu o tubo de mostarda. Tinha muita coisa amarela em sua língua. Ele não conseguia acreditar como a sua própria mãe havia feito aquilo.

Foi quando ela finalizou:

_A maldade também é amarga. Hoje a galinha venceu.

Pés

Calo, me calo, calo,
Calo, poeira, calo.
Calo, sonhos, calo
Calo, poeira, sonhos.
Me calo!
Onde meus pés me levarão?
Me calo.

terça-feira, 15 de março de 2011

No meu quarto escuro

Não consigo ver nada


                                           eles não param de me tocar


QUEREM MEU CORPO, 

                                                MEU ROSTO,

                                                                                  MEU CALOR.


           NÃO CONSIGO VÊ-LOS


                                                    ÀS VEZES OS SINTO...




                                                               PAREM de me tocar,




                                                                                          NÃO SOU UM DE VOCÊS





segunda-feira, 14 de março de 2011

Dias de crise

Ela nem sabe o que quer. Tem horas que quer ser amada como rainha, porém mantém os caprichos de uma princesa. Dias desses, ela estava em casa de mau humor e fazendo café amargo, e ficou pensando que não tinha prazer em vê-lo daquele jeito, articulado, feliz, socialmente querido, boa companhia e o que mais a irritava era que ele fazia isso tudo a amando. Queria que ele ao menos a desprezasse, um pouquinho, um pouquinho que fosse, mas ele dava a atenção que uma rainha pedia. Queria que ele falasse que não sabia sobre o que estava acontecendo na política, mas ele era sedutoramente apaixonado pelos acontecimentos mundiais. Ela gostava de falar de doces e coisas de casa e ele ficava olhando e sorrindo apaixonadamente quando ela descrevia como era feito o doce bem casado, aquilo a irritou mais. Se sentiu mal quando, em sua cabeça, fez essa comparação e achou-se inferior, mas depois sentiu raiva e foi até ao quarto para cima dele com fúria e disse que ele deveria escolher, ou do jeito dela ou ela iria para o mundo. Ele a amava tanto que a deixou ir para o mundo, mas quando ela se viu livre, pronta para ir para o grande mundo, percebeu que se distanciaria do seu mundo. Ela olhou para ele, não como rainha, mas como plebéia e o convidou para tomar o café da manhã. Naquele dia eles fizeram amor no mundo que pertencia somente aos dois.

Setenta e poucos

A velha não pára. Quer produzir. Quer correr. Correr contra o tempo, atrás do tempo. Os filhos cresceram, os netos nasceram e o marido morreu. Ela ficou, tem tentado ficar mais. Por ter ficado é preciso trabalhar. Por a vida em ordem. Sem muito pensar, a doninha de cabelos branco-amarelados e olhos apertados pega o lençol, forra a mesa _ que ora funciona para servir o almoço (para si) e ora funciona para trabalhar. Passar as roupas dos netos que uma vez por semana traz a trouxa suja para ser limpa e passada. Cuidadosamente liga o ferro, que para ela tem o nome de gomador. A velha molha a ponta do dedo na ponta da língua e o coloca no ferro para ver se a quentura está boa. Peça por peça ela passa. Vez ou outra levanta uma camisa contra a luz para ver se ficou alguma ruga, vez ou outra coloca as mãos nos joelhos para aliviar a dor. Os joelhos doem. Foi a caminhada. Falta somente aquela blusa azul-claro do neto para que o trabalho esteja concluído. Repetindo o movimento de colocar a blusa contra a luz a velha percebe que há um fio solto na manga esquerda. Sem pensar desliga o ferro e trava uma luta com a agulha e a linha. Muito tempo depois e, com toda a cautela, a velha costura aquele buraco feito pela falta daquele fio. Preenchendo o buraco da blusa, ela destila amor. Amor ao neto, ao filho e ao marido. Até amor a nora. Novamente ela liga o ferro e mecanicamente repete os movimentos: o dedo na língua... no ferro... mãos nos joelhos... blusa contra a luz... e pronto. O trabalho acabou.
     Olhando o monte de roupas passado, a velha suspira e diz:

     _Graças a Deus passei tudo!

Naquele dia a velha foi dormir sozinha, novamente...

domingo, 13 de março de 2011

Doce

Palavras loucas e dispersas tomam conta de mim.
Homens insanos e vadios transformam-se em meus atos.
Mulheres e crianças deixam-me mais forte.
Com um olhar cristalino persigo o que há de bom.
Do insano ao imundo confronto com o belo.

O belo é desejo mortal de ter o seu corpo,
mesmo que seja a força.
É a vontade de humilhar-te
até mesmo em pensamento.
É ter o olhar sobre suas lágrimas
e matar a minha sede.

Sofra como um albatroz sem asas.
Isso me dá prazer.
Satisfaça o meu desejo de olhar o seu padecer.
Cultive a dor para que possa colhê-la em forma de
anestésico.
Ela já não faz efeito em mim.

Implore!
Eu não vou te ajudar.
Ajoelhe-se!
Não vou te perdoar.
Chore!
Preciso desse doce canto de desespero.

Então venha até mim.
Nós pertencemos um ao outro e nem sabíamos disso.
Precisávamos conhecer o que havia do outro lado.
Encontramos a anormalidade que afligi milhões de normais.

Olhe para mim...
O que você espera?
Quero saber dos seus sentimentos.
Quem sabe algum dia eu te esqueça...

Somos pássaros sim

Como pássaros, procuramos nosso lugar ao céu. Voamos e voamos a fim de encontrar a melhor paisagem, para de longe, bem lá do alto, olharmos para baixo e verificarmos quão bela é a paisagem de nossa vida, quão alto conseguimos voar e quão bom foi o cansaço do vôo percorrido. É claro, eu sei, que há momentos em que parecemos ter quebrado as asas, ou pelo menos as destroncado. Acho que são os ventos fortes e mais pesados que o nosso corpinho, mas como a vontade de voar mais alto é maior que qualquer tufão, nós encaramos os ventos de nossa doce trajetória, porém cometemos o erro de fechar os olhos com o medo da poeira e por um instante perdemos a direção. Isso tudo pela vontade de voar. É nessa hora que temos que realmente mostrar que somos pássaros de verdade. Que apesar do vento ter nos desviado, gostamos de voar, e voamos para retornarmos à nossa direção.
Somos pássaros, meu Deus! Isso nos faz diferentes de qualquer outra espécie, porque nos faltam asas, mas não nos falta a vontade de voar.

sábado, 12 de março de 2011

consumo



adoro me consumir pensando em voce

A professora

Sempre era assim, ela ouvia uma história bonita e assumia aquilo como se fosse uma vivência sua. Todas as vezes que se sentava em uma mesa de bar com os amigos se lembrava de algo que gostaria de ter vivido e que ouvira em algum lugar e começa a contar:
_ “No passado eu vivi um grande amor, mas tivemos que nos distanciar por causa de nossas famílias... Outro dia salvei uma criança de um engasgamento, ela engoliu um osso de galinha... Uma vez fui ao vaticano e segurei nas mãos do papa...”.

As histórias eram requintadas, aumentadas com suspense, emoção. Na verdade o que ela queria era se tornar alguém interessante, uma vez que achava sua vida pouco apimentada. Vivia naquele quarto e sala e alfabetizava alunos no Vidigal.
O que ela queria mesmo era ser citada em uma mesa de bar, assim como citava aquelas histórias.
Um dia desses recebeu uma proposta irrecusável para lecionar em Minas. Aceitou. Foi até o Vidigal se despedir dos seus alunos. Em seu discurso, iniciou com uma daquelas histórias que ouvira em algum momento de sua vida:
_ “Como vocês sabem, sou missionária e minha função é levar a palavra para aqueles que precisam, acredito que todos vocês já estão prontos para receber uma nova professora....”

Os olhos de seus alunos brilharam, mas dessa vez não foi pelas histórias que contara e sim pelas lágrimas que insistiam em aparecer. Por um minuto ela gaguejou e esqueceu o desfecho da história. Ficou em silêncio até que um aluno interrompeu com uma voz trêmula:
_“A senhora não pode nos deixar, precisamos das suas histórias para acreditarmos”

Com aquelas palavras ela não quis ir mais para Minas, havia percebido o quanto se tornara uma pessoa interessante.

Quero ser grande

Não paravam de sorrir, não conseguiam ficar parados... tudo era lindo...o mundo rodava com pressa...com leveza...o mundo estava feliz naquele dia!
Sempre pensavam no amanhã, em como seria a vida dos dois, uma cidade onde ambos gostariam de viver, que pudessem ter uma vida saudável e feliz. Somente os dois. Naquele dia tudo parecia fácil.
O problema surgiu, quando dias depois ele foi transferido para outra cidade e ela ainda não havia terminado a faculdade. Ele seguiu lá e ela ali. Por um tempo ficaram entre lá e ali. Até que um dia não sorriam mais juntos, paravam demais para pensar e nem tudo era mais lindo.
O plano de viverem juntos durou nada mais que dois telefonemas, alguns encontros, vários e-mails e nenhuma resposta.
Hoje ele faz carreira ali, sozinho, sem ela e com o coração ordinário e ela faz pós-graduação lá, sozinha e triste, com saudade dele, enfim, os dois cresceram...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Desapaixonante

Qual é a proposta? Ele não consegue perceber. Anda pra lá, senta ali, deita no chão, olha pro teto, sai do chão, deita na cama e não consegue encontrar, qual é a proposta?
_Ai meu Deus, o que quer de mim? O que devo aprender que ainda não sei?
Mês passado ele foi pra serra de Ibitipoca passar dois dias e tentar “recarregar as baterias”. Lá viu a chuva chegando pela serra... Era um balé... Lembrou-se do espetáculo visto no Palácio das Artes, mas não queria se lembrar de BH. Quando se lembrava de BH, se lembrava da felicidade, mas se lembrava das angústias também. Sabia que quando retornasse da serra teria que resolvê-las. Por que temos que resolver o que está cheio de nós?  Seria tão mais fácil se nossas escolhas prejudicassem apenas a nós mesmos.
Mil perguntas.
Nenhuma solução.
_Ai meu Deus, onde estão as respostas?
Pelas trilhas viu o nome Janela do Céu. É pra lá que eu vou – pensou ele- talvez eu consiga entender o que Deus quer comigo.
Subindo por aqueles caminhos cheios de obstáculos, foi pensando em como tudo tinha acontecido. Era tão estranho.  Do dia em que se conheceram até a viagem para Ibitipoca, passaram-se dois anos, onze meses e alguns dias. Viajaram juntos, beberam juntos, ele se formou, ela viajou para o Canadá, ele amargou a vida de adulto, ela com as dúvidas de quem estava para formar e de repente ele começou a se desapaixonar.
_Como é isso meu Deus?  Eu a amo, mas não quero mais viver com ela. Ela me ama. Isso eu tenho certeza. Eu tenho certeza que a amo também, mas não sou mais apaixonado por ela. Preciso pensar, mas posso ser pra ela a grande decepção, a grande ferida. Se eu a abandonar, com certeza serei isso, mas seu eu ficar com ela, não estando apaixonado, serei pior. O que devo escolher?
Preciso pensar... preciso pensar... não consigo pensar. 
Quando ele a avisou que iria acampar ela não concordou, afinal, ela detestava esses programas, detestava sentar na grama, em roda com os amigos. Ele adorava sentar em volta de uma fogueira, tomar vinho barato, falar de filosofia e política e fumar um baseado. Como eram diferentes! Mas como se completavam. Coisa engraçada essa. A diferença os uniu, mas estava os separando também. Era muito ruim viver o tempo todo sob críticas, para os dois. Ele a achava mimada, ela o achava largado.  Ele a achava uma princesa, com todas aquelas maneiras e manias de menina criada com danoninho e filtro solar. Ela o achava inteligente e rústico. Estranho novamente. Depois de uma noite de vodka com coca-cola pra ela e cerveja e baseado pra ele, resolveram. Ele ia viajar, mas não iria passar uma semana, e sim dois dias.  Em seu íntimo ele pensou que dois dias seriam suficientes para decidir. Em seu íntimo ela pensou que dois dias não daria tempo pra morrer de saudades.  Ele foi então.
Não parava de pensar, mas não pensava o que queria. “Já tem uma hora de trilha, será que a Janela do Céu ainda está longe? Está escurecendo, acho melhor voltar. Preciso pensar... preciso pensar... preciso pensar. Acho tão linda a chuva vinda de longe. Acho que vai chegar aqui em cinco minutos. Vou correr.”
Começou a correr, subia trilha, cortava filetes de água, pulava pedras. A chuva chegou.
Que coisa mais deliciosa do mundo essa água geladinha no rosto!
_Me lava meu Deus! Lava minha alma! Me torne leve! Me conta o que devo fazer! Eu não sei... eu não sei... não sei.
No camping ele nem quis trocar de roupa, adormeceu molhado, querendo se lavar de seus medos, de suas angústias.
Amanheceu.
Desmontou a barraca, arrumou a mochila.  Foi embora. Sentiu-se mais pesado. Não conseguiu decidir. Dentro do ônibus chorou.Quando chegou ligou para ela, se arrependeu, mas marcou um encontro.
Durante todo o dia foi uma angústia pra ele. Enrolou quatro baseados, bebeu algumas latinhas de cerveja. Queria fugir. Queria fugir. Precisava fugir.
Ela estava planejando em ir naquele motel de sempre, ficar namorando e depois voltar pra casa e terminar os trabalhos da faculdade.
Vinte e uma horas. Ela chegou pontualmente.
Ele?
Ta chegando.
Vinte e uma horas e quinze minutos.
Ele?
Ta chegando.
Vinte e uma horas e trinta minutos.
Ele?
Virou a esquina da Augusto de Lima com Espírito Santo, ela o mirou de longe. Um beijinho.
Durante o trajeto para o motel de sempre, ele estava inquieto, angustiado, aflito. Ela acariciava a perna esquerda dele.
Ele só pensava... pensava : “Sinto como se todos os meus poros quisessem gritar”
Então ele gritou!
_Vamos voltar. Não dá mais, eu juro que tentei, mas não dá mais.
_Você está terminando comigo?
_ Eu juro que te amo, mas não dá mais.
Choro. Pausa. Choro. Ela interrompe.
_Eu juro que vou te odiar pro resto da minha vida. Desce do carro.
Sem odiá-la ele desceu e caminhado pela rua movimentada foi atrás de seu caminho. Ela seguiu o amando e tentando se encontrar e os dois nunca mais se viram.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Eu e o mar

Passar por um rio é sempre bom, me sinto lavado e levado para o grande mar. Mas que Rio é esse que mexe comigo e me dá aquele mar de lavar os olhos e me faz perceber que sou milhares dentro de um? Tudo que me era negado passo a ter.
O ar de um Rio que tem alma me traz todos os sentimentos que são polidos e castrados. Esses sentimentos ressurgem como uma mutação incrível que os fazem crescer como recém nascidos e não como antigos amputados. Os olhos brilham de beleza, o medo surge por ver que meus sentimentos estão em mutação e crescimento veloz. Eu tenho algo que pulsa aqui dentro agora, acho que é o mar que esse Rio me deu. Vejo muitas pessoas sorrindo, muitos fogos de felicidade e esperança se tornam tão grandes como os grãos daquele tapete de gente. É a vida quem está sorrindo. Eu estou sorrindo, aquele Rio fez em mim o que eu nunca imaginei: Agora eu sou mar.

Segredos



                             Somente meus.

                                   (Ninguém desconfia)

Estão em mim
                                           
 Segredos

que nem posso dizer

nem pensar
                 
 Segredos

que dOEm e pulsam

Estão em mim

Fazem-me RIR e chorar

Continuarão em mim 
                 
Sendo meus.

 Apenas meus ...

quarta-feira, 9 de março de 2011

O cinzeiro de minha terapeuta

Comecei a fazer terapia. Acho que foi para me livrar desses poemas mal resolvidos que ando escrevendo. O consultório de minha terapeuta revelava-me que os poemas sabiam muito mais que eu. Acho até que ele ria de mim. Minha terapeuta, como o de costume, sentou-se em minha frente para começarmos a sessão. Em um determinado ponto da conversa acendi um cigarro. Como não gosto de deixar a cinza cair no chão, logo fui procurando o cinzeiro de minha terapeuta. Deixar a cinza cair no chão é uma gafe. Só deixo as cinzas caírem de vez, quando não estou me importando com as gafes. O cinzeiro de minha terapeuta é meio antipático. Ele é de madeira e com tampa. Vejam só, cinzeiro com tampa. Só pode ser invenção dos japoneses. Eles são muito criativos para essas coisas. Adoro os japoneses. O cinzeiro de minha terapeuta é enigmático. Ele é “a caixa de Pandora”. E eu nem sabia disso. Ousei abrir “a caixa de Pandora” e estar de frente com os segredos que não me pertenciam. Havia dois tocos de cigarro de palha dentro. Entrei em uma viagem tão estranha. É, acho que estranha é a palavra certa. Os cigarros estavam quase todos fumados até aquela borrachinha azul que prende a palha. Fiquei imaginando quem era aquela pessoa. Uma pessoa para fumar cigarro de palha com borrachinha azul deve ser muito elegante.  E aflita também, pois tem que ficar com o isqueiro na mão o tempo todo. Fumar dois cigarros de palha com borrachinha azul e isqueiro na mão é para quem está desesperado. Será que era homem? Não, acho que não. A pegada no cigarro era muito suave para ser homem. Mas será que mulheres fumam cigarro de palha com borrachinha azul e isqueiro na mão? Será que sofria de amor ou problemas financeiros?
Acho que era de amor. Quem tem problemas financeiros não fuma cigarros de palha com borrachinha azul e isqueiro na mão.
Será que conseguiu falar de seus problemas?
Acho que sim. Afinal fumou dois cigarros de palha com borrachinha azul e ficou o tempo todo com o isqueiro na mão.
Com um estalo sai dessa viagem e encarei “a caixa de Pandora” como o objeto que era: um cinzeiro. Ela me sugava de uma forma faminta. Eu havia deixado ali dentro cinco cigarros de filtro amarelo. Achei que era demais. Cinco cigarros de filtro amarelo. Não é possível. Tampei “a caixa de Pandora” e deixei uma dúvida para o próximo paciente: Será que quem está mais desesperado? Será que quem sofre mais?
O paciente que fumou dois cigarros de palha com borrachinha azul e ficou com o isqueiro na mão ou o que fumou cinco cigarros de filtro amarelo?
Na próxima sessão tentarei descobrir...

quinta-feira, 3 de março de 2011

Virando Gente

Estou me acabando. Descobri isso há pouco. Sem perceber comecei a me lembrar de quando eu começara a me acabar. Eu ficava sentado no tapete azul da sala brincando com meu carrinho de soldado. Eu jogava de um lado para outro. Sempre derrubava um desses enfeites que as mães tanto adoram (pelo menos a minha adorava). De longe, quando ela ouvia o barulho de um enfeite se quebrando, saia da cozinha com aquelas “pegadas pesadelos” e logo dizia:

_Menino, quantas vezes eu vou te avisar para ter
cuidado? Vê se vira gente!

Eu achava graça no jeito dela falar e sempre perguntava:

_O que é gente mãe?

Minha mãe ficava mais brava quando eu fazia essas perguntas, mas eu insistia:

_Gente morre?

Sempre era assim, ela continuava a me encarar por alguns segundos e voltava para a cozinha sem me dar  a resposta. E eu nem queria mais brincar. Ficava pensando o que era gente. Para mim, gente era o meu pai, minha mãe, a Gabi e o Rex. A dona Clara não era gente. Ela era chata e fazia fofoca. O Rex era a gente que eu mais gostava porque ele ficava feliz quando eu chegava da escola. Só que ele morreu. Foi ele quem me ensinou que gente acaba.
Meu Deus! Minha mãe não pode ser gente. A Gabi e meu pai também não. Nem eu. A dona Clara pode.

Hoje eu tenho tanto medo de virar gente e me acabar.