Qual é a proposta? Ele não consegue perceber. Anda pra lá, senta ali, deita no chão, olha pro teto, sai do chão, deita na cama e não consegue encontrar, qual é a proposta?
_Ai meu Deus, o que quer de mim? O que devo aprender que ainda não sei?
Mês passado ele foi pra serra de Ibitipoca passar dois dias e tentar “recarregar as baterias”. Lá viu a chuva chegando pela serra... Era um balé... Lembrou-se do espetáculo visto no Palácio das Artes, mas não queria se lembrar de BH. Quando se lembrava de BH, se lembrava da felicidade, mas se lembrava das angústias também. Sabia que quando retornasse da serra teria que resolvê-las. Por que temos que resolver o que está cheio de nós? Seria tão mais fácil se nossas escolhas prejudicassem apenas a nós mesmos.
Mil perguntas.
Nenhuma solução.
_Ai meu Deus, onde estão as respostas?
Pelas trilhas viu o nome Janela do Céu. É pra lá que eu vou – pensou ele- talvez eu consiga entender o que Deus quer comigo.
Subindo por aqueles caminhos cheios de obstáculos, foi pensando em como tudo tinha acontecido. Era tão estranho. Do dia em que se conheceram até a viagem para Ibitipoca, passaram-se dois anos, onze meses e alguns dias. Viajaram juntos, beberam juntos, ele se formou, ela viajou para o Canadá, ele amargou a vida de adulto, ela com as dúvidas de quem estava para formar e de repente ele começou a se desapaixonar.
_Como é isso meu Deus? Eu a amo, mas não quero mais viver com ela. Ela me ama. Isso eu tenho certeza. Eu tenho certeza que a amo também, mas não sou mais apaixonado por ela. Preciso pensar, mas posso ser pra ela a grande decepção, a grande ferida. Se eu a abandonar, com certeza serei isso, mas seu eu ficar com ela, não estando apaixonado, serei pior. O que devo escolher?
Preciso pensar... preciso pensar... não consigo pensar.
Quando ele a avisou que iria acampar ela não concordou, afinal, ela detestava esses programas, detestava sentar na grama, em roda com os amigos. Ele adorava sentar em volta de uma fogueira, tomar vinho barato, falar de filosofia e política e fumar um baseado. Como eram diferentes! Mas como se completavam. Coisa engraçada essa. A diferença os uniu, mas estava os separando também. Era muito ruim viver o tempo todo sob críticas, para os dois. Ele a achava mimada, ela o achava largado. Ele a achava uma princesa, com todas aquelas maneiras e manias de menina criada com danoninho e filtro solar. Ela o achava inteligente e rústico. Estranho novamente. Depois de uma noite de vodka com coca-cola pra ela e cerveja e baseado pra ele, resolveram. Ele ia viajar, mas não iria passar uma semana, e sim dois dias. Em seu íntimo ele pensou que dois dias seriam suficientes para decidir. Em seu íntimo ela pensou que dois dias não daria tempo pra morrer de saudades. Ele foi então.
Não parava de pensar, mas não pensava o que queria. “Já tem uma hora de trilha, será que a Janela do Céu ainda está longe? Está escurecendo, acho melhor voltar. Preciso pensar... preciso pensar... preciso pensar. Acho tão linda a chuva vinda de longe. Acho que vai chegar aqui em cinco minutos. Vou correr.”
Começou a correr, subia trilha, cortava filetes de água, pulava pedras. A chuva chegou.
Que coisa mais deliciosa do mundo essa água geladinha no rosto!
_Me lava meu Deus! Lava minha alma! Me torne leve! Me conta o que devo fazer! Eu não sei... eu não sei... não sei.
No camping ele nem quis trocar de roupa, adormeceu molhado, querendo se lavar de seus medos, de suas angústias.
Amanheceu.
Desmontou a barraca, arrumou a mochila. Foi embora. Sentiu-se mais pesado. Não conseguiu decidir. Dentro do ônibus chorou.Quando chegou ligou para ela, se arrependeu, mas marcou um encontro.
Durante todo o dia foi uma angústia pra ele. Enrolou quatro baseados, bebeu algumas latinhas de cerveja. Queria fugir. Queria fugir. Precisava fugir.
Ela estava planejando em ir naquele motel de sempre, ficar namorando e depois voltar pra casa e terminar os trabalhos da faculdade.
Vinte e uma horas. Ela chegou pontualmente.
Ele?
Ta chegando.
Vinte e uma horas e quinze minutos.
Ele?
Ta chegando.
Vinte e uma horas e trinta minutos.
Ele?
Virou a esquina da Augusto de Lima com Espírito Santo, ela o mirou de longe. Um beijinho.
Durante o trajeto para o motel de sempre, ele estava inquieto, angustiado, aflito. Ela acariciava a perna esquerda dele.
Ele só pensava... pensava : “Sinto como se todos os meus poros quisessem gritar”
Então ele gritou!
_Vamos voltar. Não dá mais, eu juro que tentei, mas não dá mais.
_Você está terminando comigo?
_ Eu juro que te amo, mas não dá mais.
Choro. Pausa. Choro. Ela interrompe.
_Eu juro que vou te odiar pro resto da minha vida. Desce do carro.
Sem odiá-la ele desceu e caminhado pela rua movimentada foi atrás de seu caminho. Ela seguiu o amando e tentando se encontrar e os dois nunca mais se viram.