Quando criança, adorava passear de carro com
seu pai. Ficava olhando pela janela e achava tudo muito seu. Queria estar em
todo lugar, tocar em tudo, acenava para um, mandava beijos para outro.
Sentia que o carro não era o seu lugar, queria correr, conhecer e viver cada pedacinho de tudo. Sem perceber o passeio acabava e ela queria continuar, mas o pai dizia que estava tarde, então ela ia para o quarto e ficava se imaginando quando grande, onde iria viajar, o que iria tocar e poder ver aqui e sentir ali.
Sentia que o carro não era o seu lugar, queria correr, conhecer e viver cada pedacinho de tudo. Sem perceber o passeio acabava e ela queria continuar, mas o pai dizia que estava tarde, então ela ia para o quarto e ficava se imaginando quando grande, onde iria viajar, o que iria tocar e poder ver aqui e sentir ali.
Por muito tempo foi assim, sentiu, tocou,
viveu, até que ela o conheceu. Ele fez com que suas pernas tremessem e ela
parasse de sair pelo mundo. Ficou ali, o amando e querendo ser amada. Ela o
amou. Só ela sabe como foi difícil trocar o mundo por ele.
Tudo
o que ela queria era ser escutada, não bastava ser ouvida. Por muito tempo
tentou dizer sobre si, sobre seus medos e sobre como queria que ele a
protegesse.
Por muito tempo seu coração
doeu.
Cansou de gritar e calou-se. Passou a consentir tudo, a concordar com
tudo, a aceitar tudo. No fundo ele havia implantado nela o sentimento de medo,
de que somente ele era bom para ela.
Foi quando ela saiu correndo da casa, sem
fechar portas ou janelas e se viu sozinha no meio de uma encruzilhada.
Gritou.
Gritou novamente.
Gritou forte e viu que somente ela a escutava, então percebeu
que ela era mais do que aquela mulher submissa, silenciosa e dependente. Ao
olhar a possibilidade de caminhos parou de gritar.
Descalçou os pés e foi
caminhando em silêncio. Sozinha foi encontrar o seu próprio destino: o mundo.
Quando
ele chegou a casa, viu portas e janelas abertas, porém nunca mais a viu.
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