terça-feira, 8 de maio de 2012

Era o mundo que a chamava


Quando criança, adorava passear de carro com seu pai. Ficava olhando pela janela e achava tudo muito seu. Queria estar em todo lugar, tocar em tudo, acenava para um, mandava beijos para outro. 
Sentia que o carro não era o seu lugar, queria correr, conhecer e viver cada pedacinho de tudo. Sem perceber o passeio acabava e ela queria continuar, mas o pai dizia que estava tarde, então ela ia para o quarto e ficava se imaginando quando grande, onde iria viajar, o que iria tocar e poder ver aqui e sentir ali.

Por muito tempo foi assim, sentiu, tocou, viveu, até que ela o conheceu. Ele fez com que suas pernas tremessem e ela parasse de sair pelo mundo. Ficou ali, o amando e querendo ser amada. Ela o amou. Só ela sabe como foi difícil trocar o mundo por ele.

Tudo o que ela queria era ser escutada, não bastava ser ouvida. Por muito tempo tentou dizer sobre si, sobre seus medos e sobre como queria que ele a protegesse. 

Por muito tempo seu coração doeu.

Cansou de gritar e calou-se. Passou a consentir tudo, a concordar com tudo, a aceitar tudo. No fundo ele havia implantado nela o sentimento de medo, de que somente ele era bom para ela.

Foi quando ela saiu correndo da casa, sem fechar portas ou janelas e se viu sozinha no meio de uma encruzilhada.

Gritou.

Gritou novamente.

Gritou forte e viu que somente ela a escutava, então percebeu que ela era mais do que aquela mulher submissa, silenciosa e dependente. Ao olhar a possibilidade de caminhos parou de gritar.

Descalçou os pés e foi caminhando em silêncio. Sozinha foi encontrar o seu próprio destino: o mundo.

Quando ele chegou a casa, viu portas e janelas abertas, porém nunca mais a viu.

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