sexta-feira, 18 de maio de 2012
Noites em silêncio
São nessas noites que alguns mortos surgem para nos roubar o sono e assim poder ver o dia amanhecer. Alguns o tem atormentando insistentemente, e por mais de quatro dias ele viu o nascer do sol. Ainda bem que a previsão do tempo disse que o fim de semana será de tempo nublado à chuvoso, talvez assim ele consiga dormir sem seus mortos.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Toda tragédia é poesia
O medo que a atormentava era o fato de ter escolhido se calar. E por muito tempo o silêncio ou o sorriso amarelo a acompanhou. O mais difícil era controlar a dor, muitas vezes era tão latente que a sufocava e quando o grito ameaçava a sair, ela sorria.
A dor era tamanha que nenhum ser vivente imagina o que é viver, apenas vive. Vez ou outra ela não se controlava e soltava as percepções mundanas. Sempre era uma catarse para ela e um holocausto para os ouvintes, mas ela dizia.
A vida colocava as palavras ácidas em seu sorriso amarelo e em seu silêncio questionador. Ela sempre pensava na dor, e querer passar pela dor de viver com dignidade exigia muitos sorrisos amarelos, ou uma morte poética, do tipo estricnina no vinho ou mãos na serpente, porém ela queria testar seus limites, ver até essa dor seria lacerante.
Pouco a pouco ela se perdia, perdia um pedaço de si ali, uma grande parcela de si aqui e quando se viu, percebeu que se esvaia e que não havia nada de si, apenas o sorriso amarelo e a dor.
Foi quando ela se deitou na cama, sem fôlego, ofegante. Respirou fundo e relaxou.
Pensou, pensou, pensou, pensou... e sorriu...
Concluiu: “Há beleza na tragédia, eu estou viva.” Assim, ela dormiu em paz. Naquela noite...
terça-feira, 8 de maio de 2012
Era o mundo que a chamava
Quando criança, adorava passear de carro com
seu pai. Ficava olhando pela janela e achava tudo muito seu. Queria estar em
todo lugar, tocar em tudo, acenava para um, mandava beijos para outro.
Sentia que o carro não era o seu lugar, queria correr, conhecer e viver cada pedacinho de tudo. Sem perceber o passeio acabava e ela queria continuar, mas o pai dizia que estava tarde, então ela ia para o quarto e ficava se imaginando quando grande, onde iria viajar, o que iria tocar e poder ver aqui e sentir ali.
Sentia que o carro não era o seu lugar, queria correr, conhecer e viver cada pedacinho de tudo. Sem perceber o passeio acabava e ela queria continuar, mas o pai dizia que estava tarde, então ela ia para o quarto e ficava se imaginando quando grande, onde iria viajar, o que iria tocar e poder ver aqui e sentir ali.
Por muito tempo foi assim, sentiu, tocou,
viveu, até que ela o conheceu. Ele fez com que suas pernas tremessem e ela
parasse de sair pelo mundo. Ficou ali, o amando e querendo ser amada. Ela o
amou. Só ela sabe como foi difícil trocar o mundo por ele.
Tudo
o que ela queria era ser escutada, não bastava ser ouvida. Por muito tempo
tentou dizer sobre si, sobre seus medos e sobre como queria que ele a
protegesse.
Por muito tempo seu coração
doeu.
Cansou de gritar e calou-se. Passou a consentir tudo, a concordar com
tudo, a aceitar tudo. No fundo ele havia implantado nela o sentimento de medo,
de que somente ele era bom para ela.
Foi quando ela saiu correndo da casa, sem
fechar portas ou janelas e se viu sozinha no meio de uma encruzilhada.
Gritou.
Gritou novamente.
Gritou forte e viu que somente ela a escutava, então percebeu
que ela era mais do que aquela mulher submissa, silenciosa e dependente. Ao
olhar a possibilidade de caminhos parou de gritar.
Descalçou os pés e foi
caminhando em silêncio. Sozinha foi encontrar o seu próprio destino: o mundo.
Quando
ele chegou a casa, viu portas e janelas abertas, porém nunca mais a viu.
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