terça-feira, 26 de novembro de 2013

Bombardeios



Bombardeios

Mais um dia nublado, e a vontade de sair da cama não sorria para ela. Balaústre. Enquanto ela olhava para o teto pensava nessa palavra. Para ela, essa era a palavra mais bonita que existia. O sentido de ornamentação que a palavra trazia também era lindo. Integridade, essa foi a segunda palavra que ela pensou. Não achava essa palavra tão bonita, porque a falta dela trazia algo que ela não queria sentir. Felicidade foi essa palavra que ela sentiu por muito tempo. Foi deitada que ela uniu os três significados. Foi feliz, íntegra e foi um ornamento. A última constatação doeu. Foi ornamento.
Para ela, doía ser ornamento, pois este sai de moda, entra em desuso e logo, o que antes era ornado, passa a exigir algo mais novo, mais belo e o antigo ornamento é descartado como se nunca tivesse trazido beleza alguma.
Seu coração estava um bombardeio. Era raiva misturada com dor.  Por muito tempo aconteceu com ela, o que acontece com várias outras. Foi torturada psicologicamente. Sempre ouvia críticas pesadas a respeito de sua leveza de ser. Queriam que ela fosse gigante, que fosse educada e durona. A cada tentativa de ser gigante ou educada era um tapa na alma. Eram críticas destrutivas.
A certeza que ele tinha em fazer tanta dor na mente daquela mulher, era o amor que ela sentia por ele. Por diversas vezes ela o socorreu quando ele chorou e se anulou de sua dor para ser forte para ele, e naquele momento, quando ela estava rastejando pelos bombardeios sofridos, ele foi embora caminhando. 
Arrastando-se ela foi até o armário. Arrumou as malas, chorou caída no chão, pois os bombardeios a deixaram muito feriada, mas ela ainda tinha força. Lembrava-se da força que tirava, sabe se lá de onde, para deixá-lo de pé. A maioria das coisas que estavam no armário não lhe seria útil. O que realmente seria útil era a sua imagem diante do espelho.
Diante do espelho ela cuidadosamente delineou seus olhos, passou o mais belo batom, cobriu o rosto com uma maquiagem suave e arrastou sua mala até a porta. Sem trancar a porta ela partiu para o bombardeio, foi ser feliz.