Era algo estranho que estava ali dentro.
Talvez medo, talvez angústia ou talvez nada. Queria simplesmente conseguir
expressar o que sentia, mas não conseguia. Tinha tanto medo de dizer, que o
silêncio era o seu pior castigo. Quando ela o conheceu, naquela cidade em que
não ia há anos, pensou: desmanche-se em mim. Era só nisso que ela pensava
enquanto o olhava tomando aquela cerveja do outro lado do balcão. Ache-me!
Mentalizava para que, mais que seus olhos, seus pensamentos se cruzassem.
Naquela noite parece que seu pensamento teve força e ele se aproximou dela.
Quando ele disse pouco mais que três frases, ela o beijou. O beijou como há
muito tempo não fazia. Sentiu todo o gosto da juventude naquele beijo. Apaixonou-se.
Foi uma noite perfeita, mas teve que
partir. Tinha medo de deixá-lo e não sentir mais aquele gosto de
juventude. Amanheceu radiante. Por
várias vezes ela olhou o telefone e quis ligar, mas estava insegura, não sabia
se ele queria falar com ela ou se ele estava ocupado. Passou o dia todo
tentando ocupar a mente, porém toda hora ele vinha à sua cabeça. Realmente ela
estava apaixonada, mas não sabia lidar com isso. Sentia-se refém daquele
sentimento, queria dizer isso a ele, mas tinha medo de afugentá-lo.
As oito da noite, depois de muita
espera, o celular tocou. De súbito, ela deu um pulo, queria atender
imediatamente, mas respirou fundo, tentou acalmar as batidas fortes de seu
coração, deixou o telefone tocar mais um pouco, respirou novamente e com uma
falsa suavidade na voz, o atendeu. Conversaram por horas. Estavam apaixonados.
A partir daquele dia, seus finais
de semana se resumiam em viajar e voltar àquela cidade. Por meses viajou para
vê-lo. Por meses planejou voltar a morar ali. E de repente surge a melhor
notícia. Estava voltando, dessa vez seria de vez. Por duas semanas foram
felizes para sempre. Mas a convivência... Ah a convivência. Essa estava sendo
cruel. Por muitas vezes a fazia se calar, a fazia se sujeitar, a fazia se
reinventar. Por muitas vezes ela se anulou e sentiu-se muda. Tinha medo de
perdê-lo. Ele estava seguro de tudo e com isso a mutilava com palavras. Ela
continuava com medo de perdê-lo. A cada agressão verbal em tom sorridente, mais
frágil ela se sentia. Não reconhecia mais suas forças. Havia se tornado cativa
em seus sentimentos. Não pensava mais em felicidade, queria viver uma angústia
confortável. Por quase dois anos, se calou. Por quase dois anos sentiu-se
humilhada. Quando viu que em momento algum ela era a prioridade dele, exceto
para ser ultrajada, lembrou-se de quanto tempo não se diziam “eu te amo”. Foi
quando ela se lembrou de quando o olhava tomando aquela cerveja e desejava que ele a desmanchasse.
Compulsivamente chorou, pois não se reconhecia em nada. Não encontrava nada de
si em seu interior. Ele havia a desmanchado. Cada lágrima chorada tirava aquela
mancha que a ofuscava. E aos poucos ela ressurgia. Estava frágil, mas ainda
existia. Se olhando no espelho misturou choro com riso, estava se reconhecendo.
Com um toque suave, aproximou a mão trêmula em seu reflexo e parou de
chorar. Sorriu. Abraçou-se. Naquela noite ela se amou. Percebeu que a cada
palavra que doía , era ele que a perdia. Foi ele quem se desmanchou. Quando o
dia amanheceu, ela, mulher, machucada, mas linda, retomou sua história. Foi ser
feliz e, nunca mais ouviu falar nele.
Perfeito meus parabens!!
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