terça-feira, 5 de março de 2013

O desmanche



Era algo estranho que estava ali dentro. Talvez medo, talvez angústia ou talvez nada. Queria simplesmente conseguir expressar o que sentia, mas não conseguia. Tinha tanto medo de dizer, que o silêncio era o seu pior castigo. Quando ela o conheceu, naquela cidade em que não ia há anos, pensou: desmanche-se em mim. Era só nisso que ela pensava enquanto o olhava tomando aquela cerveja do outro lado do balcão. Ache-me! Mentalizava para que, mais que seus olhos, seus pensamentos se cruzassem. Naquela noite parece que seu pensamento teve força e ele se aproximou dela. Quando ele disse pouco mais que três frases, ela o beijou. O beijou como há muito tempo não fazia. Sentiu todo o gosto da juventude naquele beijo. Apaixonou-se.  Foi uma noite perfeita, mas teve que partir. Tinha medo de deixá-lo e não sentir mais aquele gosto de juventude.  Amanheceu radiante. Por várias vezes ela olhou o telefone e quis ligar, mas estava insegura, não sabia se ele queria falar com ela ou se ele estava ocupado. Passou o dia todo tentando ocupar a mente, porém toda hora ele vinha à sua cabeça. Realmente ela estava apaixonada, mas não sabia lidar com isso. Sentia-se refém daquele sentimento, queria dizer isso a ele, mas tinha medo de afugentá-lo.
As oito da noite, depois de muita espera, o celular tocou. De súbito, ela deu um pulo, queria atender imediatamente, mas respirou fundo, tentou acalmar as batidas fortes de seu coração, deixou o telefone tocar mais um pouco, respirou novamente e com uma falsa suavidade na voz, o atendeu. Conversaram por horas. Estavam apaixonados.
A partir daquele dia, seus finais de semana se resumiam em viajar e voltar àquela cidade. Por meses viajou para vê-lo. Por meses planejou voltar a morar ali. E de repente surge a melhor notícia. Estava voltando, dessa vez seria de vez. Por duas semanas foram felizes para sempre. Mas a convivência... Ah a convivência. Essa estava sendo cruel. Por muitas vezes a fazia se calar, a fazia se sujeitar, a fazia se reinventar. Por muitas vezes ela se anulou e sentiu-se muda. Tinha medo de perdê-lo. Ele estava seguro de tudo e com isso a mutilava com palavras. Ela continuava com medo de perdê-lo. A cada agressão verbal em tom sorridente, mais frágil ela se sentia. Não reconhecia mais suas forças. Havia se tornado cativa em seus sentimentos. Não pensava mais em felicidade, queria viver uma angústia confortável. Por quase dois anos, se calou. Por quase dois anos sentiu-se humilhada. Quando viu que em momento algum ela era a prioridade dele, exceto para ser ultrajada, lembrou-se de quanto tempo não se diziam “eu te amo”. Foi quando ela se lembrou de quando o olhava tomando aquela cerveja e desejava que ele a desmanchasse. Compulsivamente chorou, pois não se reconhecia em nada. Não encontrava nada de si em seu interior. Ele havia a desmanchado. Cada lágrima chorada tirava aquela mancha que a ofuscava. E aos poucos ela ressurgia. Estava frágil, mas ainda existia. Se olhando no espelho misturou choro com riso, estava se reconhecendo. Com um toque suave, aproximou a mão trêmula em seu reflexo e parou de chorar. Sorriu. Abraçou-se. Naquela noite ela se amou. Percebeu que a cada palavra que doía , era ele que a perdia. Foi ele quem se desmanchou. Quando o dia amanheceu, ela, mulher, machucada, mas linda, retomou sua história. Foi ser feliz e,  nunca mais ouviu falar nele.