domingo, 23 de setembro de 2012

Girassóis


O trânsito estava muito lento e ela sentia que seu coração estava fadigado. Queria gritar, chorar, rolar no chão com tamanha dor, mas só conseguia manter aquela cara de pessoa centrada. Estava sentada no último banco do ônibus. Queria ficar sozinha. A cada parada que o ônibus fazia para pegar algum passageiro, ela sentia como se um buraco a quisesse engolir. Espremia as coxas com as mãos para conseguir se controlar e não descer ali e sair correndo feito uma louca pelas ruas. Para se distrair, focava o olhar no passageiro que entrava. Viu de longe aquele senhor acenando para o ônibus. A aparência dele chamou sua atenção. Ficou olhando com impaciência a dificuldade que ele tinha em subir no coletivo e a gentileza do motorista em aproximar mais um pouco o veículo da calçada. Aquilo a irritava, pois estava com pressa. Tinha uma vida inteira pela frente, mas o trânsito a fazia pensar. Pensava em tudo e olhava para aquele velho e pensava em como suas orelhas eram grandes, como sua coluna tinha se envergado tanto. Aquilo era efeito do tempo ou efeito do fardo da vida? Devia ser da vida, pois o tempo não era tão devastador quanto viver. Por um tempo fixou o olhar no ancião, não pensava mais, só olhava a vida a sua frente em forma corcunda de resto de carne e orelhas. Sem perceber uma senhora sentou-se ao seu lado. Tinha uma lástima no olhar e queria conversar. Novamente ela impacientou-se. Não queria ouvir lamúrias de ninguém. Tinha um destino a saber, mas o trânsito continuava lento. Mexeu em sua bolsa procurando nada, apenas deixando claro que não queria conversa, mas por descuido deixou seu maço de cigarros cair. Aquela cena foi um prato cheio para aquela senhora, franzina, cabelos desarrumados, dentes gastos e amarelos puxar assunto. Você não devia fumar- dizia a velha. Vai morrer de câncer, vai perder o fôlego. Ela pensava, que  aquela velha era uma pobre solitária e não queria pensar nisso. Não queria conversar, será que ela não percebia? E sem tomar ar a velha continuava – já tem três meses que estou morando sozinha. É a pior coisa do mundo, sinto muita falta do meu marido. Hoje para passar o tempo eu bordo de manhã e a tarde pego o ônibus para passear pela cidade. Agora veja só, eu tive um amor, tive um único amor e agora parei de fumar. Você devia parar de fumar. Ou não. Mas é saudável. O que importa não fumar se a gente perde o amor? De cinqüenta anos com ele, só me restou o cinzeiro e o ônibus. Até as lembranças estão indo. Mas eu me lembro do cheiro do cigarro que ele fumava na sala. Ainda hoje tem o cheiro. De súbito a velha levantou-se e prosseguiu – Oh minha querida, preciso parar aqui. Vou comprar flores, vou comprar um girassol, era a flor que ele mais gostava. A velha desceu e, ela sem entender muito, não disse uma só palavra. Às vezes ela pensava, eu devia ter perguntado o que houve. Estou louca para fumar. Que coisa engraçada, o meu amor também adora girassóis.
Impaciente ela viu que seu destino se aproximava. Viu o ônibus passando pelas ruas centrais da cidade e se lembrou da beleza e inocência de seus quase vinte. Em qual destas esquinas essa beleza e juventude ficou? Nem ela mesma conseguiria saber. Ao chegar ao seu destino desceu apressadamente, ainda mancava devido ao terrível acidente, mas a dor física não superava a dor de querer gritar. Ao chegar ao hospital se identificou e pediu informações sobre ele. Quando o médico lhe deu a notícia ela não queria mais gritar. Não chorou. Continuou com a mesma cara de pessoa centrada. Agradeceu ao médico e foi à primeira floricultura que viu pela frente. Comprou um girassol. Não ligou para ninguém. Voltou para sua casa e entrou no quarto, pensou em todos os planos, todas as alegrias, todos os desenganos, sabia que não teria mais ninguém a esperar. Pensou na valsa que dançariam juntos, nas promessas quebradas e no abandono que sentia ali. Varou a madrugada sentada na beira da cama, não se sentia cansada, não conseguia chorar, não conseguia se arrastar, apenas olhava o girassol. Ainda sentia o cheiro do cigarro. Colocou o girassol no criado mudo envelhecido, que ficava do lado  em que ele  se deitava e foi dormir. Desde aquele dia ela não dormiu mais sozinha, como nos últimos meses. As lembranças e os girassóis lhe acompanhavam.